Fragmentos

22:30


Era noite quando te vi pela última vez, e nem era realmente você e sim o que sobrou de você, uma sombra sentada na beirada da cama calçando os sapatos enquanto eu não conseguia sair do lugar, nenhuma parte do meu corpo se mexia, nem mesmo os meus olhos. Todas as outras vezes eu só achei que te vi, no meio da multidão, no reflexo do espelho, do outro lado da janela, dentro do trem, no fundo do ônibus, no canto escuro do quarto, na beirada da cama calçando novamente os sapatos.
Eu via seus olhos me fuzilando em todos os lugares; sentia suas mãos me tocando, me sufocando, me invadindo; seu cheiro estava por toda parte, assim como o seu calor, sua voz e o som enlouquecedor da sua respiração. Você estava nos livros que não terminei, nos meus programas favoritos que me faziam desligar a televisão, no prato de comida que eu não engolia, do outro lado da mesa me encarando com um sorriso quase desafiador.
Você tirou de mim todas as vontades, os prazeres e os encantos, retirou cada fragmento de alegria que restava em minha alma, e me deixou só as marcas, o pânico e alguns copos quebrados. A verdade é que você vive em tudo que deixou aqui e em cada silêncio de fim de tarde que escurece meu quarto e recai sobre a imagem frequente de suas mãos me tocando, sempre as malditas mãos.
Os tempos ficam mais difíceis e você fica cada vez mais frequente, toda vez que você decide voltar é um novo grito no vazio, um novo silêncio das paredes e um novo reflexo no espelho. A única coisa que eu desejo agora é não te ver mais, nem de verdade, nem sem querer e nem no reflexo, meu reflexo.

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2 comentários

  1. Eu me identifico muito com teus textos. Eu sinto muito por toda dor que resultou nesses escritos, mas espero que lhe ajude saber que essa dor resultou em algo muito belo. Cada texto teu é como uma pedra não lapidada (coincidentemente eu prefiro as pedras não lapidadas, a beleza rígida e áspera me atrai). Espero que tu esteja a cada dia melhor, e que continue escrevendo. E que lapide, com o tempo, teus textos. Pois eles não são pedras, e textos lapidados carregam sua própria beleza. Um beijão.

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    1. Obrigada pelo carinho e pelos desejos de melhora. Fico feliz em saber que o que escrevo te atinge de alguma forma, espero que a gente consiga ficar cada dia melhor. Seu comentário fez o meu dia. Muito obrigada.
      Beijinhos.

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