Olhar

20:51


Sofia encarava seu próprio rosto acabado no espelho do banheiro, as olheiras fundas, os arranhões, as cicatrizes, sentiu falta de quando se preocupava só com as espinhas. Mais uma batida na porta, “estou saindo”, ela gritou, mas queria se sentar ali e ficar para sempre.
Esgueirou-se pela multidão próxima dos banheiros, ouviu algumas cantadas medíocres de bêbados nojentos, se afastou das mãos que tentavam tocá-la sem permissão e finalmente se sentou no bar. Mais um copo, já era o quinto e ainda não era o suficiente, apesar de já conseguir enxergar as coisas um pouco embaçadas e em câmera lenta, e foi em um desses momentos que Sofia a viu.
Ela entrou no bar com o braço em volta dos ombros de uma garota, seus cabelos estavam mais curtos e aliança de ouro já estava na mão esquerda. “Merda”, sussurrou para si mesma, preferia acreditar que as duas estavam mortas do que frequentar o mesmo bar que sua ex. Pediu uma cerveja, e abaixou a cabeça, a última coisa que precisava agora era ser reconhecida por sua ex-namorada acompanhada da atual esposa.
Ainda com a cabeça abaixada tentando tomar goles maiores da sua cerveja, Sofia ouviu a voz dela tão próxima que se assustou e olhou para os lados, lá estava ela, tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Olhar para ela trazia um sensação tão boa quanto um sorvete numa tarde quente de verão, ou como um barulho da chuva na janela quando se está com muito sono, mas não poder tocá-la era a maior dor de todos os tempos, uma sensação de abandono, como se a melhor parte dela estivesse ausente. Sofia não percebeu que estava encarando Mabel até que ela começou a olhá-la também, naquele momento em que os olhos das duas se encontraram todos os últimos anos se reduziram a nada, um arrepio subiu por toda a espinha de Sofia, seu coração acelerou e, apesar do frio, sentiu o suor surgindo na sua testa, até que Mabel pegou seu copo no balcão e voltou para sua mesa, levando com ela todas as sensações que acabaram trazendo um pouco de esperança para Sofia, mesmo sabendo que nada mais aconteceria.
Sofia olhou por cima do ombro e viu as duas abraçadas e sorridentes na mesma mesa onde ela costumava se sentar com Mabel, sentiu todos os anos voltando e as paredes sendo reconstruídas entre as duas. Não se reconheciam mais, nenhum sorriso, nenhum beijo no rosto, só uma troca de olhares rápida e vazia, estranho, os olhos se conheciam há tanto tempo, mas agora acabou. Sofia voltou para sua cerveja e Mabel para o seu casamento, o que fez Sofia pegar seu pequeno caderno na bolsa e tomar nota:
“Amor é uma coisa engraçada, complicada, parece que há pouco tempo atrás éramos duas jovens loucas atrás de um pouco de diversão, apaixonadas, encantadas, inseparáveis, agora somos só olhares vazios em um bar. Nenhum sorriso, nenhum cumprimento, um olhar bastou para sabermos que as jovens se foram, somos apenas isso agora.”

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