O grande dia

15:43


Acabei de colocar o último livro na estante. Havia acabado também de por a última camiseta no armário e a última colher na gaveta. Acho que estou pronto.
É hoje, é o grande dia. Eu passei os últimos vinte anos esperando por esse dia. Confesso que não é a primeira vez que acho que é hoje. Já me enganei bastante. Mas é hoje, dessa vez eu sinto. Esperei tanto, mas tanto, que agora que chegou o sol até brilhou diferente. É hoje. É o dia que minha vida vai fazer sentido.
Sento no sofá. As almofadas estão perfeitamente alinhadas e não encontro um farelo no estofado. Cruzo as pernas e arrumo minhas postura, tudo precisa estar perfeitamente alinhado, caso contrário pode não dar certo. Olho em volta e, ah, a mesinha de centro. Levanto e a movo um pouco para a esquerda. Pronto. Agora sim ela está no centro.
Volto a sentar com todo o cuidado do mundo, não quero desarrumar nada. Com certo pesar, lembro da última vez que pensei que era o grande dia. Foi no último dia de Ensino Médio. Eu já havida me livrado dos materiais do curso, todos aqueles papeis e equações, joguei tudo no lixo. Aquele uniforme antigo também foi gratificantemente descartado. Eu me livrei de qualquer indício que provasse que um dia eu havia cursado o Ensino Médio, organizei tudo, coloquei tudo no lugar e esperei. Com toda a expectativa do mundo eu esperei que aquele fosse o grande dia. Mas não foi. O meu novo eu não entrou pela porta. O meu novo eu, um eu mais feliz, não veio aproveitar a casa que eu preparei só para ele. Mas ignoro esse pensamento, até o que se passa na minha cabeça precisa ser perfeito.
Levanto mais uma vez e vou até o quarto, quero checar se não esqueci de pendurar nenhum casaco. Eu olho ao redor e vejo as fotografias na parede. A mais antiga é do primeiro dia que eu achei que seria “o dia”. Eu estava de uniforme e havia pintado toda a casa com guache. Desenhei em todas as paredes e fiz pilhas com meus gibis nas prateleiras. Até guardei um pedaço do bolo de chocolate da minha mãe da minha geladeira, para quando meu novo eu chegasse.
Deitei na cama e comecei a traçar um cronograma mental de todas as vezes que me preparei para o grande dia. Já enchi toda a casa de revistas e livros didáticos, pensando que estudar mais faria com que um novo eu muito inteligente e decidido entrasse pela porta. Também já enchi a geladeira de garrafas e mais garrafas de bebidas alcoólicas, achando que um novo eu mais adulto chegaria. Renovei minha coleção de CDs, fui da MPB ao grunge, achando que a cada mudança chegaria o grande dia, mas até agora não aconteceu.
Voltei para a sala, olhei no relógio na estante, já passava das onze da noite. Sentei no sofá e comecei a imaginar como seria meu novo eu. Eu enchi minha casa com livros de filósofos e grandes pensadores, coloquei plantas perto das janelas e vegetais na geladeira. Acho que é isso que adultos têm em casa. Eu transformei minha casa numa casa de adulto e estou esperando o adulto chegar. Já estou com muito sono e exausto de tanto trabalhar nesse ambiente. Pela primeira vez, me sinto um pouco frustrado. O dia já está acabando e tudo que eu sei é que já me preparei muito por um dia que não chega nunca. Eu não sei quando vou crescer e encontrar meu novo eu, mas descobri que estava engado, o dia não é hoje.

You Might Also Like

0 comentários