Janela

22:37

Sempre me lembro daquela vez que a chuva veio e as janelas do segundo andar começaram a bater, ela tinha me jurado que havia trancado todas elas, suspirei e a encarei com desaprovação, mas nem fui percebido, ela havia adormecido com o rosto enterrado na almofada do sofá, sua boca estava entreaberta, não pude evitar o sorriso com tal cena. Um estrondo de um relâmpago, Panqueca arregalou os olhos e correu para baixo do cobertor, suas orelhas para trás, claramente assustada com seu par de olhos verdes grandes e chorões, “gata medrosa”, pensei.
Subi as escadas correndo para fechar todas as janelas, minha cama estava encharcada, as eu penso que ela faz isso propósito., até porque quando fui até o quarto dela as janelas estavam fechadas, era tão óbvio e tão triste que senti uma vontade gigante de chorar, não sou do tipo chorão, mas Ana me deixa com o coração mole. Eu também sentia saudades, mas não podia dizer. Desci até a sala e a peguei no colo, espantando Panqueca do sofá, coloquei-a em sua cama e voltei para o sofá acompanhado de um cobertor e um travesseiro, orgulhoso demais para fazer o que ela queria. Não demorou muito para Panqueca se infiltrar no novo cobertor do sofá, mas tudo bem, com ela eu podia dormir.
A luz da escada se acendeu, “ela acordou”, pensei, automaticamente fechei os olhos e me encolhi como se estivesse dormindo, estupidez, ela me conhece bem demais pra isso funcionar.
— O que está fazendo no sofá?
Sua voz era lenta, quase arrastada, ela estava morrendo de sono. Não respondi, esperando que ela desistisse e voltasse para a cama, escolha idiota, até parece que não conheço a melhor amiga teimosa que arranjei. Ela começou a descer as escadas, mesmo com as meias eu conseguia ouvi-la descer, pensei que fosse morrer quando ela chegou ao final da escada.
— Eu sei que você está acordado.
Abri os olhos e soltei um suspiro que estava prendendo desde que a luz se acendeu, saiu como uma bufada.
— Vamos para a cama.
— Minha cama está molhada.
— Para a minha cama.
Fiquei em silêncio, não faria isso de novo já foi errado demais fazer uma vez.
— Você não vem?
— Não.
— Por que?
— Você sabe por quê.
Ela se sentou no ultimo degrau e apoiou o queixo em uma das mãos, odiava quando ela fazia isso.
— Então vou dormir sentada aqui.
— Pelo amor de Deus, Ana...
— Você não quer dormir comigo por que fizemos sexo na ultima vez?
Novamente não respondi, era tão óbvio e ela ainda perguntava, queria ouvir da minha boca, queria me ouvir dizer que eu fiz sexo com ela sabendo que tenho uma namorada e sabendo que ela é minha melhor amiga, a conheço bem o suficiente para saber que é exatamente isso o que ela quer, então vou só ignorá-la.
— Fala comigo, Pedro.
— Sabe o que eu queria? Voltar no tempo. Eu queria voltar no tempo e impedir que tudo aquilo acontecesse, queria aparecer antes e dizer para meu eu do passado: Não faça isso.
— Por que?
— Porque agora eu sinto uma vontade incontrolável de te beijar o tempo todo. A sensação de ficar longe de você é tão dolorosa que parece que estou sendo esfaqueado pelo Indiana Jones. — Levantei do sofá e comecei a andar de um lado para o outro da sala — Todas as manhãs eu fico te observando fazer café e tudo que consigo pensar é no quanto você é linda e como sou patético por amar você desse jeito. Eu sei que isso parece a coisa mais normal do mundo, mas não é. — Parei de andar de um lado para o outro e olhei para ela — Não para mim, a situação não é favorável o suficiente para eu me apaixonar por você. Eu estou com a Camila agora, e eu amo muito a Camila e eu simplesmente não posso fazer isso.
— Você está apaixonado por mim?
— Eu não queria, mas eu estou. Não consigo dormir, trabalhar, cacete Ana eu nem consigo jogar video game direito! E eu sinto tanto por isso, eu sinto muito mesmo.
O silêncio dela me deixou tão perturbado que achei que ia explodir, jurei que nunca mais diria nenhuma dessas palavras para ela de novo, estava acabado, não ia acontecer porque eu não ia deixar acontecer, isso foi longe demais. A cada palavra que eu dizia minha garganta parecia estar cheia navalhas. Tentei me convencer que as coisas não eram tão ruins assim, ela também gostava de mim, certo? Não havia motivos para não gostar, anda mais depois de agir daquele jeito para cima de mim. Isso é patético, é óbvio que ela não gosta de mim, sou tão idiota e percebi isso quando olhei nos olhos dela e percebi o quanto estava assustada.
Ana voltou para a cama e eu voltei para o sofá, amar dói mais agora.

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