Feliz natal, Bernardo!

23:50


Feliz natal, Bernardo! É meia noite do dia 25 de dezembro, mas ele não vê ninguém abraçando os parentes. Não existe natal no cemitério. E oras, quem vem ao cemitério em pleno natal? Bernardo veio, porque há dois dias, no dia 23 de dezembro seu pai teve um daqueles ataques cardíacos, daí dizem que ele morreu do coração. Mas Bernardo, e só Bernardo, discorda do diagnóstico médico. Ele acredita que seu pai morreu de desgosto. Desgosto dele.
Bernardo viu sua mãe chorar, seus irmãos sofrerem e seus sobrinhos se encolherem nos braços dos pais. Mas ele não sentia nada, não sentia sede, nem fome, nem frio, nem calor, nem dor, nem coisa alguma. Ele não sentia nada. É melhor sentir dor do que sentir nada, e ele sabia disso. Então, em busca de sentir algo, Bernardo desceu uma das alamedas do cemitério para ver as sepulturas. Mas ele não quis ver os túmulos de mármore, com detalhes esculpidos delicadamente, com estátuas de santos católicos, com os sobrenomes de várias famílias e cheios de flores bonitas. Não, ele quis descer mais um pouco, visitar os túmulos simples, que tinham apenas uma plaquinha de identificação sobre eles, sem luxo ou sobrenome de família honrada, sem flores ou esculturas de mármore.
Ao encontrar um túmulo bem simples, sem identificação, só com uma pedra sobre ele para demarcar que era, de fato, um túmulo, e sem grama o cobrindo, Bernardo sentou de frente para ele. Não se importou em sujar de terra o seu jeans e seus tênis. Só precisava ficar a sós com seu futuro túmulo. Sim, ele acreditou fielmente, naquele momento, que quando morresse teria seu corpo dispensado em um buraco sem identificação como aquele. Afinal, quem se importaria com uma despedida formal e bonita? Sua família? Ele era uma vergonha, era o pior que uma família poderia ter. O máximo que aconteceria, se sua mãe fosse misericordiosa, seria um velório fechado e curto, nada além disso. Era irônico para Bernardo pensar na própria morte como um fato futuro, uma vez que ele já estava morto. Seu pai o matou.
Sua morte se deu no inverno, sua estação favorita. Bernardo viajou com sua família e alguns amigos de seu pai para um chalé numa região montanhosa, o lugar era lindo e frio, como ele gostava. Foram duas semanas memoráveis para ele, que só tinha quinze anos. Nessa viagem, Bernardo conheceu Lorenzo, filho do amigo de seu pai. Lorenzo tinha dezoito anos, fazia faculdade e era filho único, era o orgulho de seus pais. Já no primeiro momento que se viram Bernardo sentiu aquela pontadinha  por Lorenzo, daí foi questão de tempo. Passaram toda a viagem trocando olhares intensos, carinhos e beijos escondidos, confidências. Bernardo já havia beijado outros garotos, sempre soube que gostava de garotos, mas nunca tinha gostado de um garoto em especial, até conhecer Lorenzo. Os momentos que os dois passavam juntos eram tão prazerosos que eles começaram a ficar menos discretos, e esse foi um erro fatal. No penúltimo dia de viagem os dois estavam sentados na frente do lago, combinando de se ver quando voltassem para suas respectivas casas, quando, no meio de um beijo, ouviram o pai de Bernardo gritar. Eles foram pegos, foram pegos se beijando. As famílias de ambos ficaram chocadas e desgostosas com a descoberta, o clima no chalé ficou tão pesado que todos voltaram para casa mais cedo. Ao chegar em casa, o pai de Bernardo o chamou para conversar. Disse que nunca havia sentido nojo de alguém que amava, até aquele momento, disse ainda que nunca mais admitiria um comportamento como aquele, e que era melhor ele crescer e virar um homem íntegro, pois não conseguia mais olhar para Bernardo sem querer espancá-lo.
Agora, seis anos depois de o pai de Bernardo ter o matado, ele morreu. Morreu sem ter abraçado o filho, sem ter dito que o amava, sem demonstrar carinho. Bernardo sentiria falta desse carinho para sempre, e se sentia culpado por isso. Seu pai se amargurou depois do acontecido no chalé, o desgosto foi tanto que se tornou um peso. O peso que o matou. Mesmo depois de Bernardo ter saído de casa, há dois anos, quando ele ia visitar a família seu pai se mostrava indiferente, como se a presença dele fosse um mal suportável. Quando contou para a mãe que tinha um namorado, que estava feliz com ele, sua mãe implorou para que não contasse para o seu pai de forma alguma, que ele o mataria se soubesse.
Bernardo encarou o túmulo sem identificação mais uma vez. Ele queria tanto ser o filho que seus pais desejavam. Queria arrumar uma namorada aos 15, uma noiva aos 25, casar algum tempo depois, filhos aos 30, construir uma família, como seu pai. Mas ele não era assim, Bernardo era gay, era tudo que sua família não queria que ele fosse. E ele tentou, tentou muito não ser. Tentou não olhar os rapazes bonitos na rua, mas sim olhar para as meninas. Tentou também se interessar por alguma garota, e apesar de algumas serem muito interessantes e bonitas, ele não sentia vontade de beijar nenhuma dessas. Bernardo gostava de meninos, e isso era mais forte que ele.
Mas mesmo sendo homossexual, Bernardo queria ter uma família. Ele sonhava em se casar com seu namorado, em comprar a decoração natalina nessa época do ano e enfeitar a casa, queria adotar filhos e contar histórias para eles na hora de dormir, levar as crianças para andar de bicicleta no parque e depois para tomarem sorvete. Ele queria passar o natal na casa de seus pais, assim como seus irmãos e seus sobrinhos. Queria que embaixo da árvore de natal da casa de sua mãe pudesse encontrar presentes etiquetados com o nome dele, do marido e dos filhos, mas jamais aconteceria.
Bernardo iria se casar, mas ninguém da família iria em seu casamento. Brigaria na justiça para adotar seus filhos, mas as pessoas na rua o abominariam. Iria frequentar espaços públicos com sua futura família, mas se encontrasse um de seus irmãos por lá, eles com certeza iriam embora, só para não ter que cumprimentá-lo. E ali, naquele momento, Bernardo desejou já estar em sua cova sem identificação, era um pensamento horrível, ele sabia, mas era tudo que ele tinha agora. Bernardo nunca, jamais, de forma alguma, seria plenamente feliz. Ele sempre seria rejeitado, sempre seria “o filho que nasceu defeituoso”, sempre. Por isso, naquele momento, mesmo sem acreditar em Deus, Bernardo rezou. Pediu para que Deus não deixasse que seus sobrinhos fossem homossexuais, que jamais se sentissem órfãos de pais vivos, pediu perdão por ter trazido tristeza e decepção para a vida de sua família, mas por último e com muito mais fé, pediu para que seu pai, só por um segundo, pudesse ver seu coração e entender que ele nunca quis ser assim.

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