Malu de blusa aberta

23:38


Aos 9 anos conheci Malu, ela estava sentada no banco do pátio na escola com um pirulito Pop de morango na boca, seus cabelos pretos escorriam lisos até a cintura, era a garota mais bonita que eu já tinha visto em toda minha curta vida escolar. Ela se apresentou para a classe na primeira aula e deu um sorriso tão lindo que me fez perceber, naquele mesmo momento aos 9 anos de idade, que eu estaria ferrado para o resto da minha vida, e eu nem sabia o que isso significava na época. Escrevi mil bilhetes de amor para ela, mas nunca consegui fazer mais do que isso.
Malu foi embora da cidade com 11 anos, o pai arranjou um emprego melhor em outro lugar e lá se foi meu primeiro amor. Fiquei arrasado, lembro de ter passado uma noite em claro me perguntando por que não falei com ela quando tive a chance. Eu era uma criança e não sabia o que estava fazendo, só percebi o quão terrível era quando fui ao cinema pela quinta vez assistir ao mesmo filme, ABC do amor.
Eu e Malu não éramos amigos, só colegas de classe, nos falávamos pouco, mas nos víamos sempre, e aquele sorriso, ah o sorriso, o efeito dele em mim nunca mudava, na época eu nem sabia diferenciar se isso era bom ou ruim, mas fazia minha alma se sentir mais viva toda vez que eu olhava a foto da turma no ano anterior. Estar apaixonado é uma dor que não desejo ao meu pior inimigo, citando ABC do amor estupidamente bem.
No meu aniversário de 20 anos o burburinho entre meus amigos começou: “a garota está voltando” “que garota?” “ouvi dizer que vai morar ao lado da sua casa” “quem?” “nem lembrava mais dela” “ela quem?” “a Malu, porra”. Meu coração parou por um segundo e voltou mais rápido do que nunca, tinha quase me esquecido dela, quase.
Cheguei em casa tarde, várias caixas de papelão se amontoavam em frente à casa, antes vazia, ao lado da minha e uma única luz estava acesa, a janela da lateral direita, um quarto, talvez o dela, talvez eu pudesse vê-la. Subi correndo até meu quarto e abri as cortinas, a janela da frente estava apagada, corri até o velho escritório que costumava ser de meu pai e espiei com cuidado pela cortina entreaberta, lá estava Malu, com os mesmos cabelos negros e lisos até a cintura, com os mesmos olhos castanhos levemente puxados, era a mesma garota, o mesmo rosto de anos atrás em um corpo um pouco mais desenvolvido, nada muito grande, tudo bem pequeno na verdade e ela era tão linda. Malu estava falando com alguém que a fez sorrir no telefone, o sorriso era o mesmo, mas ainda mais poderoso, então eu me lembrei da afirmação de estar ferrado para o resto da minha vida e, agora sabendo o que isso significava, só consegui confirmar.
Encontrei-me com ela poucas vezes, digo, eu a vi outras vezes, porque não nos falamos em nenhuma delas então não foi exatamente um encontro, certo? Enfim, eu a via chegar e sair de casa, cruzava com ela na calçada, na padaria, no mercado e nas cafeterias do centro, frequentávamos os mesmos lugares, mas nunca nos falávamos. Foi, ironicamente, um dia antes do dia de finados que tudo mudou.
Era sábado e eu estava em um bar do centro junto com alguns amigos, era uma festa a fantasia e eu nunca me dou bem com essas coisas, arranjei uma camisa xadrez e um machado de plástico, a barba ajudava na composição de lenhador. Por volta do meu sexto copo de cerveja, vi Malu do outro lado da sala, uma típica índia americana, com roupas curtas e beges, estava até com o rosto um pouco pintado. Fiquei paralisado por algum tempo, só conseguia pensar que se ela era Pocahontas eu não me importaria de ser John Smith.
Não falei com ela enquanto estávamos lá, foi quando eu estava indo para casa que a encontrei sentada na escada de um barzinho abandonado, sendo observada por olhares vazios e, ouso dizer, esfomeados de todos os homens presentes ali. Me aproximei com cautela, não queria assustá-la, mas ela não se importou, apenas me encarou com os olhos aparentemente pesado, estava drogada, era tão claro para mim que lidava com amigos assim o tempo todo.
Malu? — Perguntei envergonhado.
Eu te conheço? — Sua voz estava arrastada e baixa, seus olhos quase fechados.
Sim, talvez não se lembre, mas estudamos juntos na época que você morou aqui. — Sentei-me ao lado dela na escadaria — Meu nome é João, João Pedro.
— Não me lembro, sinto muito.
— Tudo bem, eu não esperava que lembrasse.
Ficamos em silêncio por longos minutos, eu ficava observando-a, era impressionante como ela conseguia ser tão linda até com a luz amarela dos postes de rua batendo no seu rosto, me distrai tanto olhando para seu rosto que nem percebi que ela também me olhava e sorria ainda mais.
— Você é o garoto das sardas. — Dei um sorriso sem graça, até porque odeio meu sorriso e confirmei balançando a cabeça — Ainda tenho suas cartas de amor em uma caixa lá em casa.
— Nem me lembre disso, eu era tão idiota.
— Sempre gostei delas, mas tinha vergonha de dizer.
— Não me sinto mais tão idiota.
Malu riu alto, jogou a cabeça para trás, deitou nos degraus e acendeu um cigarro, e naquele momento, enquanto ela soltava fumaça com a boca levemente aberta eu só consegui perguntar se ela queria carona para casa e ela aceitou.
Naquela noite delirei como nenhuma outra, Malu era uma amante inigualável, até seus movimentos mais brutos eram doces, até seus gritos de êxtase tornaram-se gemidos abafados em meu ouvido, eu escutava pouco e enxergava menos ainda. Suor pingava do corpo de Malu, o zíper que fechava sua blusa estava aberto revelando o suor que escorria desde a ponta do seu queixo passando entre seus seios e descendo até seu umbigo, nunca tinha visto uma mulher tão linda em toda minha vida. Malu gemia em um ritmo tão bom que era como uma música do Led Zeppelin para os meus ouvidos. Eu poderia morrer ali que eu morreria feliz, o homem mais feliz do mundo.
Acordei no sofá por volta de 12h, Malu tinha ido embora e só restava o cheiro dela preso em meu corpo e um bilhete preso na geladeira: “Não me procure, tenho namorado”, por incrível que pareça não senti meu coração se partir e nem nada do tipo, eu esperava por isso, não pelo namorado e sim pelo resto. Passei o resto do dia me perguntando se minha obsessão por Malu durante todos esses anos não era apenas uma vontade incontrolável de fazer sexo com ela, concluí que sim, mesmo que meu primeiro contato com esse sentimento tenha sido aos 9 anos de idade.
Depois disso, encontrei Malu várias vezes em vários outros bares, sempre saindo de lá com um cara diferente, e para mim era tão óbvio que o tal namorado não fazia bem o que deveria, se não ela não teria vindo atrás de ninguém, mas era tudo uma eterna aventura para Malu e por isso que era bom, porque era errado, porque ela não podia e fazia mesmo assim, sentia-se poderosa e segura de si.
Aos 22 Malu se casou e se mudou para outra cidade, com o mesmo cara que um dia eu vi pela janela de casa dar um soco na boca dela, cheguei a ligar para a polícia, mas Malu negou tudo e continuou com o homem. Apesar de tudo isso eu só conseguia pensar em quantos bares Malu teria que visitar e quantos caras diferentes ela teria que transar para perceber que alguma coisa estava errada e que não era culpa dela, implorei num sussurro para que não demorasse, e não demorou, porque menos de um ano depois de se casar, Malu apareceu na minha porta.
Sua blusa estava rasgada na frente, revelando um sutiã preto rendado, suas meias finas rasgadas, seus cabelos bagunçados e seu rosto coberto por lágrimas.
— Ele me forçou... De novo.
Essa frase dita com uma voz trêmula e com olhos cheios de lágrimas me derrubou. Meu primeiro amor se tornou saco de pancadas de alguém e eu não conseguia pensar em nada para dizer, apenas a abracei e sussurrei que estaria ali para ela, foi o suficiente, seus ombros relaxaram e o choro diminuiu. Malu dormiu na minha cama e eu passei a noite em claro, acalmando-a quando os pesadelos infernais vinham e acalmando minha mente com seu rosto sereno ao adormecer.
Minha Malu de 9 anos foi embora naquela noite, junto com a Malu de 11 e a Malu de 22, sobrou apenas uma Malu de 23 que ainda conseguia dormir apesar de todo o terror dos últimos anos e ela me escolheu para fazê-la esquecer, foi a maior honra da minha vida.
De tudo isso tirei uma lição valiosa: ame revolucionárias, duronas que se afogam em copos de vodca fantasiadas de felicidade ou de índias americanas, a satisfação de fazer uma dessas sorrir a ponto de amar será inigualável. Aliás, há tantas Malus de blusa aberta e olhos de Capitu por aí.



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