Sem Ana, Blues

22:12


Li aquele conto do Caio Fernando Abreu doze vezes, foi a última coisa que ela leu para mim e eu nem percebi que o título era um adeus.
Parece que passaram a me perguntar mais sobre como me sinto desde que ela se foi, só hoje devo ter ouvido: “como você se sente sobre isso? ” umas mil vezes, por que só se importam com a gente quando perdemos alguém importante? Sempre respondo que estou bem, que era a hora certa, que ela está em um lugar melhor, mas a cada resposta sinto meu coração se apertar como se me alertasse para não mentir.
Ana foi o último amor da minha vida, ela sorria para mim no escuro do quarto antes de adormecer, fazia danças engraçadas enquanto cozinhava, usava vestidos sempre que podia. Lembro que vários amigos nossos diziam que uma luz a acompanhava sempre que ela entrava em uma sala. Em nossas poucas saídas, éramos parados várias vezes por desconhecidos que elogiavam o sorriso dela, que era maravilhoso e cheio de brilho. As chances de um cara como eu, sem graça, babaca, desinteressante e com namorada, conhecer alguém como Ana eram mínimas, mas aconteceu e mudou minha vida para sempre.
Nossa história foi clichê e cheia de momentos que pareciam o fim do mundo. Conheci Ana em uma festa, faltavam dois dias para o aniversário de um ano do meu namoro e eu estava apaixonado pela minha namorada, até que eu vi do outro lado da sala o sorriso que fez o meu coração bater mais rápido do que nunca. Lembro que precisei dela ali, naquele momento, como se ela fosse uma droga na qual eu estava viciado. Tomei alguns copos de vodca para conseguir coragem e falar com ela, eu estava hipnotizado. Consegui coragem para conversar com ela, falamos sobre tudo, nossos filmes preferidos, nossas séries preferidas, bandas, música, shows e até sobre minha namorada. A cada palavra que saía da boca de Ana eu me sentia mais apaixonado, ela era perfeita demais para ser real. Ana recusou todas as minhas tentativas de beijá-la, sempre dizendo que eu tinha namorada e que aquilo era errado, meus amigos também me lembravam o tempo todo do meu namoro, mas eu precisava sentir os lábios dela nos meus, até que, encostados no meu carro, pouco antes de irmos embora, ela não recusou e me beijou.
Foi, sem dúvida, um beijo desajeitado, eu queria sentir todos os sabores daqueles lábios, queria guardá-los como uma lembrança perfeita, intacta. Ela sorriu para mim depois de me beijar, o sorriso-Ana que me mostrou que eu não esqueceria dela tão cedo.
No outro dia, eu sai com minha namorada e toda vez que eu olhava para ela a imagem de Ana vinha na minha cabeça e isso era tão errado, mas ela era tão linda. Ficou pior quando isso se tornou algo frequente, eu beijava minha namorada e pensava em Ana, fazia sexo com minha namorada e pensava em Ana, acabei ligando para ela e pedindo para que me encontrasse, eu precisava acabar com isso ou ficaria louco.
Encontrei-me com Ana uma semana depois e acabei descobrindo que ela se sentia da mesma forma. Conversamos por horas e decidimos não nos encontrar mais porque era errado, muito errado, eu lhe pedi um beijo de despedida e ela me deu um, e eu senti que aquela, com certeza, não era a última vez.
Por fim, nos encontramos outras vezes e eu conheci mais sobre ela, a parede que me separava dela estava caindo e eu soube de várias coisas que me deixaram com vontade de abraçá-la para sempre, Ana foi a mulher mais forte que eu tive o prazer de conhecer em toda minha vida, e por esse motivo eu disse que a amava. Não foi por impulso, eu sabia o que estava dizendo, eu a amava e queria gritar para todo mundo ouvir, mas eu tinha que dizer sussurrando porque eu ainda era comprometido, e isso tornou tudo ainda pior.
Quando tudo começou a ficar confuso demais, meus sentimentos pelas duas estavam complicados, eu pedi um tempo para Ana, disse que precisava pensar em muitas coisas, que era muita pressão e que eu estava confuso. Quase desisti dela durante esse tempo.
No aniversário de Ana decidi falar com ela, não nos falávamos há muito tempo e eu estava transbordando de saudade. Liguei, desejei feliz aniversário e pedi para encontrá-la, com um tom frio ela perguntou: “Você já terminou com ela? “ Respondi que não, ela desligou o telefone na minha cara. Uma amiga em comum me chamou para a comemoração do aniversário, pensei em não ir e acabei indo, meu corpo pulsava pelo de Ana, eu precisava dela com todas as forças que existiam dentro de mim.
Entre copos de vodca, gargalhadas e histórias confusas, chegamos ao fim da noite e Ana se aproximou de mim antes de ir embora, ela me beijou com saudade e sussurrou um “eu te amo” abafado, foi a primeira vez que aquilo foi dito por ela pessoalmente, meu coração pulou e acabei não resistindo ao convite de passar a noite na casa dela. Ana era ainda mais bonita sem as roupas.
Milhares de coisas aconteceram depois disso, mas agora tudo parece ter ido embora junto com ela. Foi estranho e dolorosa vê-la caída no chão quarto com os cabelos mergulhados em sangue. Ana estava morta e eu não pude fazer nada. Em um dia ela estava sorrindo ao meu lado na cama e no outro ela simplesmente estava morta, vítima da própria mente.
Ana sofria de depressão e simplesmente se matou em uma manhã de domingo. Eu estava fazendo café e escutei seu corpo caindo no chão do andar de cima, chamei uma ambulância, mas era tarde demais, o brilho já tinha deixado seus olhos.
Não derramei nenhuma lágrima desde aquele dia, todo o meu estoque foi embora quando o médico me deu a notícia. Eu continuo na mesma casa e ainda acordo no meio da madrugada procurando por ela no espaço vazio ao meu lado na cama. O beijo que ela deixou em meu rosto na noite antes de morrer ainda está aqui e eu ainda sinto o cheiro dela nos lençóis. A luz da minha vida se foi e eu nem pude dizer tudo o que eu queria dizer.
Me pergunto se eu teria feito as mesmas coisas se soubesse na primeira noite até onde aquela garota de vestido florido e sorriso encantador me levaria, e sempre chego à conclusão que sim, eu faria tudo de novo se pudesse olhar naqueles olhos castanhos mais uma vez e dizer o quanto eu a amo.
Goodbye, brown eyes. Goodbye, my love.

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