Canção de amigo

16:01


É a porta que não abre, é o sol que não aquece, é o sono que não dorme. É o inanimado, o sem vida e o sem expressão. É o livro com páginas arrancadas e a TV que não liga. É tão clichê quanto eu e você. É saudade, meu amor.
É a canção de amigo, que os grandes cavaleiros escreviam se passando por mulheres, porque saudade não é coisa de gente forte. É o desespero que clama às flores do verde pino. É pedir sem resposta e viver em dúvida.
Não é Camões, não é fogo que arde sem se ver. Eu vejo, mas você não. Jamais será fogo, não é um ardor que incendeia, destrói e passa. É uma martelada constante e ritmada, sem fim e sem descanso. É se ver preso em plena liberdade. É sentir saudade.
É o maior clichê do mundo, é querer sem poder. É muita amenidade e desespero contido. É estar incrédulo diante da verdade pulsante. É jogar xadrez sozinho. É o vestido que não serve mais, mas é muito bonito para jogar fora.
É um vinil que você nem tem onde tocar, mas se apegou demais para se livrar dele. É um grito que nunca saiu da garganta, é alto demais para sair. É pintar o mar com lápis de cor roxo, tentando se convencer que o desenho vai ficar bom mesmo sem o lápis azul. É se enganar todos os dias.
É a saudades que não tem explicação, que esbarra em mim em cada rua que eu ando, que não me deixa ter paz. É a saudade que é um monte de coisas sem ligação e sem sentido, mas é sentida.  É a saudade que eu não sei porque sinto, mas sinto de você.

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1 comentários

  1. Adorei o texto. É aquele tipo de texto que é escrito por outra pessoa, mas que parece que saiu da gente. <3

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