A história de Laura.

18:47


Laura era o meu sol. Ela era a alegria da minha vida, era o que eu tinha de mais bonito e precioso. Acho que jamais haverá alguém como Laura. Não existia uma só pessoa que não se sentisse alegre na presença dela. Era o seu bom humor, o seu sorriso, a sua voz, sua inteligência, sua bondade e seu coração. Tudo que se podia  ter de bom Laura tinha. Eu não era merecedor de tanto.
Um dia Laura deixou de ser Laura. Eu não sei como, mas sei que foi culpa minha. Assim, como um susto, o sorriso que iluminava a Terra se apagou. Agora seus lábios desferiam palavras de escárnio e veneno. A aura de pura luz passou a transmitir uma energia desagradável. A musa de meus poemas agora queimava sonetos de amor. Ela se tornou outra Laura, uma Laura que já não emanava felicidade, mas radiava raiva e saía andando sozinha, com seus próprios pesares.
Preciso dizer que sempre soube que ela tinha um lado obscuro. Laura nunca se amou, nunca acreditou em si, e o pior de tudo, Laura nunca foi verdadeiramente feliz. Eu a compreendia dessa forma, a amava dessa forma. Ela despertava nos outros a alegria que não tinha para quem sabe se servir dela. Mas Laura deixou de cativar a felicidade alheia, agora se mutilava na própria tristeza.
Coberta pela nuvem negra, Laura me deixou. Acho que não foi uma nuvem negra, foi um tornado, porque ela me arrasou. Eu chorei por ela, eu gritei por ela, eu mergulhei nas águas negras de Laura para desafogá-la de si. Mas nada adiantou, acho que ela era na verdade uma masoquista, porque se casou com a própria dor. E enquanto ela vivia na dor, eu tentava estancar o sangue das feridas que ela causou. Laura penetrara tão fundo em mim que as cicatrizes seriam enormes. Mas eu não queria a cicatriz, queria ver o corte aberto, a sensação do danificado me conectava com ela.
Ela sumiu e eu restei. Eu passava os dias procurando Laura nos becos, fantasiando que ela queria que eu a encontrasse e a levasse para casa. Inventava em minha cabeça histórias protagonizadas por ela, nas quais eu a via passeando na avenida, estava linda como sempre, e ao me ver vinha correndo para os meus braços, me beijava com os lábios novamente doces e me fazia juras de amor, dizia morrer de saudade. Com toda a certeza isso nunca aconteceu. Mas o pior se dava pelas noites, nas quais eu era um viciado em abstinência. Eu cantava nossas músicas, jogado no chão frio, soluçando em prantos, socando o piso e tentando exorcizar de mim todo aquele sentimento doente. Tentando exorcizar Laura de mim.
Laura nunca voltou, mas eu a vi. Lá estava ela, mais sombria que nunca, andando por aí com seus novos amigos. Não sei se eles não eram engraçados, mas ela não sorria. Eu observei por muito tempo, ela não sorriu em momento algum. Parecia que uma onda de mágoa e rancor rondava todo o perímetro de seu corpo. Passei exatas duas horas, cinco minutos e onze segundos olhando para ela. Os cabelos já não tinham a leveza de sempre, Laura parecia mais velha. Mas nunca menos bonita, ela jamais estaria menos bonita, Laura era uma pintura renascentista, sem uma única pincelada imperfeita. Agora minha pintura de Sanzio tinha no corpo traços góticos. Não só no corpo, na alma.
Eu cheguei em casa e gritei seu nome. Laura. Eu amo esse nome, eu o repito o tempo inteiro, milhões de vezes, até a minha voz se tornar tão cansada quanto eu mesmo. Laura. Laura. Laura. Eu escrevi seu nome das paredes. Eu pintei Laura na minha casa e no meu espírito. Perder Laura doía, mas ver Laura perdida matava. Era a sensação que eu tinha, que ela adoeceu, mas eu que morri.
Eu ainda a quero de volta, eu sempre vou querer. Ela pode voltar desse jeito mesmo, eu ajudo a consertar. Eu sei que foi culpa minha, me perdoe, Laura. Eu sei que estou louco de pensar assim, mas isso é o amor. É sobre se sacrificar pelo bem de quem se ama. É puxar de volta para a vida quem se jogou no abismo. Mas Laura não se jogou sozinha. Somos almas algemadas, ela me carrega com ela. Ela rasteja na dor agora, e me leva junto. Eu choro por Laura. Eu amo Laura. Eu preciso salvar Laura. E Laura não quer ser salva. Ela não quer mais existir, ela nunca quis, eu sempre soube disso. E sabendo disso, amei-a mais ainda. Me desculpe, Laura.


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